. ACENDA UMA VELA ANO 5 ||DEMOCRATIZE O CINEMA BRASILEIRO. FILMES SÃO FEITOS PARA SEREM VISTOS || PELOS DIREITOS DO PÚBLICO. NÓS SOMOS O PÚBLICO. realização: IDEÁRIO . patrocínio: MINISTÉRIO DA CULTURA (MinC) - FNC/Secretaria do Audiovisual E PRÊMIO ARETÉ - PROGRAMA CULTURA VIVA/Secretaria de Cidadania Cultural. parceria: PROGRAMADORA BRASIL e ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CINEMA DE ANIMAÇÃO . apoio: CINE + CULTURA, ALGÁS e RÁDIO EDUCATIVA / INSTITUTO ZUMBI DOS PALMARES

terça-feira, 27 de abril de 2010

Tela de luz puríssima

RELATO SESSÃO 4 | MARAGOGI
Litoral Norte/AL
. 05/03, 20h – Barra Grande – sexta-feira
Público: 130 pessoas

A LUA NA JANELA ERA CINEMA. Quase todos os anos o município de Maragogi recebe o projeto Acenda uma Vela nas praias do centro da cidade, Peroba e São Bento. Este ano não havíamos planejado sessões para o local, pois a idéia era visitar um maior número de novas localidades, como o município vizinho Japaratinga na abertura da temporada. Mas parece que a vela se apegou à cidade e como roupa muito usada, seguiria mesmo sem o dono para lá: de última hora fomos convidados para uma sessão extra na cidade, aproveitando o público do 1º Encontro Regional de Pontos de Cultura de Alagoas e Sergipe promovido pelo Ministério da Cultura, nosso patrocinador, e pela Secretaria de Cultura do Estado.

Maragogi fica bem no meio do caminho entre Alagoas e Pernambuco e acabamos viajando na sexta-feira mesmo para a sessão que aconteceria à noite. Saímos da Ideário no início da tarde e como Hermano só iria chegar depois e os assistentes, Beto e Peixe, não iriam sessão, partimos numa grande caravana da Luluzinha, com Tadeu e Val, o assistente por um dia, espremidos pela conversa feminina frenética durante a viagem.
O apoio para hospedagem no hotel do encontro furou e acabamos acertando nossa estadia de uma noite no bom e velho chalé do Bob, onde sempre ficamos durante as sessões de São Bento, praia vizinha. Fomos direto para lá assim que chegamos, às quatro da tarde, assentamos as mochilas e seguimos para Barra Grande com os equipamentos. Começamos a descarregar e montar o ambiente por volta das cinco horas com a praia escurecendo deserta, o mar de uma esmeralda escura.

Hermano chegou no início da noite, após uma maratona digna de James Bond. Do Rio de Janeiro à Maragogi, passando por Recife, ele utilizou quase todos os meios de transporte disponíveis para os seres humanos – avião, ônibus, trem, van, microônibus e as próprias pernas, ficando devendo apenas aos transportes aquáticos para sorte dele e nossa.

A sessão foi montada na areia atrás do hotel Praia Dourada. Um grupo de dança Afro pediu para utilizar o som do cinema durante a apresentação que fariam no meio da sessão. Ensaiamos com eles para marcação das músicas enquanto uma parte da equipe prendia as fitas coloridas nos poucos coqueiros e a noite deixava acender as primeiras estrelas.

Assim que alguns pares de olhos começaram a se aproximar da vela após o jantar, projetamos o primeiro filme, ACENDA UMA VELA 4 – DIÁRIO DA ITINERÂNCIA, um livre registro sobre a temporada anterior do projeto. Foi a primeira vez que o exibimos em público, já que até então sua circulação havia se restringido à internet. Após o filme-aquecimento-de-sessão, iniciamos com CAMPO BRANCO e ÁRVORE DA MISÉRIA como referência à diversidade da produção nordestina.

Hermano abre a sessão e a noite faz tela do cinema na vela
[foto \ Nataska Conrado]

Nosso velho conhecido de outras temporadas, o curta YANSAN, foi inédito para boa parte do público da sessão e intrigou os pontos de cultura afro com as possibilidades da animação. Para nossa surpresa, o vídeo DIZER LIVRE, realizado pelos jovens do Ponto de Cultura Ideário, segurou a atenção da maioria com as reflexões sensíveis do personagem central, o adolescente Alisson, mesmo com seus 20 minutos. Mas foi SWEET KAROLYNNE que arrebatou sensações: gargalhadas, silêncios e comoção ao ouvir a versão de Love me Tender, de Elvis Presley, em inglês infantil inventado pela garota. Os pedidos para comprar o filme foram tantos quanto os aplausos ao final da exibição e a frustração ao saber que não comercializamos os curtas.

Os garçons do hotel faziam questão de servir os hóspedes na areia a cada segundo, pois só assim poderiam dar uma olhadinha na exibição e se indagarem do porquê de nunca terem pensado em organizar algo semelhante com os pescadores da região. Uma hóspede nos contou ao final da noite que viu a vela acesa da janela do seu apartamento e na mesma hora avisou ao marido, que tomava banho e não a levou a sério. “Ele saiu molhado de toalha para ver da varanda de tanto que insisti. Ficamos sem acreditar que o cinema estava numa embarcação”.

Perto do final da sessão, um momento inesperado arrancou aplausos espontâneos do público. Às dez da noite, uma lua alaranjada começou a surgir na linha do horizonte como uma bola de fogo. Parecia que estávamos presenciando um eclipse raríssimo, tamanha a surpresa e magia do momento. A praia deserta e escura, somente o cinema, a lua e as estrelas sinalizavam, com nostalgia, o público deitado nas esteiras e cadeiras de sol. Inspirados pela suspensão do instante, o grupo de dança afro começou sua apresentação na frente da vela, espalhando cantos e batuques em direção às águas do mar em saudação à Iemanjá.

A vela, o cinema, a lua.
[foto \ Nataska Conrado]

Dança afro dos pontos de cultura.
[foto \ Nataska Conrado]

Terminamos com a exibição de O DJ DO AGRESTE e NO TEMPO DE MILTINHO, para os admiradores e freqüentadores arapiraquenses do Bar do Paulo e os fãs de longa data da genialidade de Miltinho. A conversa com o público relativamente conhecido nos segurou pelo início da madrugada e voltamos no microônibus bastante animados com o retorno positivo da sessão. Muitos Pontos de Cultura conheciam nosso trabalho, porém nunca haviam assistido uma exibição do Acenda uma Vela. Não havia crianças na sessão, o que nos deu uma maior liberdade para exibir filmes fantásticos que não podemos tirar da cartola com freqüência pela restrição da classificação indicativa.

Era madrugada quando partimos para São Bento e apesar do caminho relativamente curto, a estrada vazia pareceu muito maior pela escuridão da noite e por nossas longas conversas sobre os filmes com imitações de cenas e as freqüentes gargalhadas. Fomos dormir embalados por conversas na área externa do chalé e ao som do dêjota laptop com Cat Stevens, James Taylor e Caetano sob um céu de estrelas. Será difícil esquecer a lua daquela noite, a noite daquele cinema.

[foto \ Nataska Conrado]

[foto \ Nataska Conrado]


[foto \ Nataska Conrado]

O público deitado na areia e nas cadeiras de sol
[foto \ Nataska Conrado]


[foto \ Nataska Conrado]

[foto \ Nataska Conrado]


[foto \ Nataska Conrado]

Fim de sessão com a lua já alta no céu
[foto \ Nataska Conrado]


[filmes exibidos na sessão 4]

/Programação Geral:
ACENDA UMA VELA 4 – DIÁRIO DA ITINERÂNCIA [Ideário Comunicação e Cultura
20 min / 2009 / AL]
CAMPO BRANCO [Telmo Carvalho
15 min / 1997 / CE]
A ÁRVORE DA MISÉRIA [Marcus Vilar
12 min / 1997 / PB]
YANSAN [Carlos Eduardo Nogueira
18 min / 2006 / RJ]
VINIL VERDE [Kléber Mendonça
16 min / 2004 / PE]
O JUMENTO SANTO E A CIDADE QUE SE ACABOU ANTES DE COMEÇAR [LEO D e William Paiva
11 min / 2007 / PE]
DIZER LIVRE [Direção coletiva Ponto de Cultura Ideário
20 min /2008 / AL]
SWEET KAROLYNNE [Ana Bárbara Ramos
15 / 2009 / PB]
O DJ DO AGRESTE [Regina Barbosa
18 min / 2007 / AL]
NO TEMPO DE MILTINHO [André Weller
17 min / 2008 / RJ]

Um comentário:

Cacau disse...

Lis,

estou amando os relatos que vc está postando no blog do acenda uma vela. muito bom!!! lembro de tudo com a perfeição dos detalhes relatados...

vontade de rir, chorar...

O último que li foi o "Tela de luz puríssima" da sessão Maragogi... e menina, esse trecho aí é digno de um Jorge Furtado da vida... fiquei pensando como ficaria roteirizado para o cinema:

"Hermano chegou ao início da noite, após uma maratona digna de James Bond. Para ir do Rio de Janeiro para Maragogi, passando por Recife, ele utilizou quase todos os meios de transporte disponíveis para os seres humanos – avião, ônibus, trem, van, microônibus e as próprias pernas, ficando devendo apenas aos transportes aquáticos, para sorte dele e nossa."


Parabéns!!!

bjosss